Blog do Fancelli

A importância da introdução e do manejo racional de microrganismos na agricultura

Um novo cenário se descortina visando a construção de sistemas sustentáveis de produção...

Por Antonio Luiz Fancelli
Fancelli & Associados – Consultoria Agronômica
fancelli@usp.br

Introdução

A agricultura, pode ser definida como a “arte de colher o sol”, pois através da fotossíntese transforma a energia radiante em energia química ou metabólica, garantindo o milagre da vida. Todavia, atualmente, a busca frenética da alta produtividade, sem fundamentos ecológicos, poderá comprometer a estabilidade e a sustentabilidade do processo produtivo, devido à acentuada simplificação e à baixa diversidade dos agroecossistemas.
Neste contexto, hoje, se evidencia a:

1) Desvalorização do Conhecimento;
2) Uso de Recomendações Padronizadas ou Calendarizadas;
3) Ações de Caráter Reducionista:
4) Ausência de visão holística do processo produtivo;
5) Desrespeito ao Ritmo da Natureza e
6) Domínio escravizante do Rendimento Operacional.

Portanto, a continuidade dos procedimentos mencionados, fatalmente irão conduzir a agricultura por caminhos incertos, visto que poderá resultar, principalmente, em:

1) Baixa Estabilidade Produtiva;
2) Penalização do Ambiente;
3) Amplificação da Demanda e do Gasto Energético;
4) Aumento da Taxa de Emissão de Carbono e
5) Comprometimento da Sustentabilidade e da Lucratividade do Processo Produtivo.

Mudança de Conceito

Assim, recomenda-se uma mudança de conceito, cujas ações deverão ser fundamentadas na efetiva diversificação do sistema, em todas as suas modalidades, tais como:

1) Diversificação no Espaço (uso de diferentes genótipos, clones e biotipos em áreas extensas);
2) Diversificação no Tempo (rotação de culturas);
3) Diversificação de Manejo (uso de programas equilibrados e parcelados de adubação, uso criterioso de agroquímicos e respeito ao ritmo da natureza) e
4) Diversificação Edáfica (prevenção constante da compactação do solo, adição e manutenção de Matéria Orgânica, uso de plantas de cobertura na entressafra, estímulo e/ou favorecimento da vida do solo e Introdução criteriosa de Microrganismos e de seus metabólitos no Sistema de Produção).

Figura 1. Uso de plantas anuais nas entrelinhas de plantas perenes

Dentre todas as alternativas citadas uma delas se mostra altamente promissora, devido a sua eficiente contribuição na sustentabilidade da produção agrícola diversificada e intensiva. Essa alternativa, com certeza, se relaciona ao uso de microrganismos benéficos e multifuncionais, os quais desempenham serviços imprescindíveis ao sistema, dentre os quais merecem especial destaque:

1) Melhoria na disponibilização de nutrientes e na Nutrição de plantas;
2) Fortalecimento dos sistemas naturais de defesa da planta contra fungos, bactérias, insetos e nematoides;
3) síntese e disponibilização de substâncias hormonais;
4) Auxilio na prevenção e na mitigação de estresse;
5) Incremento da produção de húmus;
6) Sequestro de carbono;
7) Fixação biológica de nitrogênio – fixadores livres e simbióticos;
8) Ciclagem e manutenção de energia;
9) solubilização de nutrientes presos ao Al, Ca e Fe;
10) Melhoria da porosidade, estruturação e estabilidade de agregados do solo e
11) Garantia da decomposição de xenobióticos (herbicidas e inseticidas persistentes e de substâncias tóxicas) e neutralização de metais pesados, além de outros.

Interação Planta-Microrganismo-Ambiente

A interação planta-microrganismo-ambiente é bastante complexa e ainda, um tanto obscura, exigindo muitos estudos futuros visando sua plena compreensão, porém suas intrincadas relações garantem a manutenção da vida nas mais diversas condições.

Ressalta-se, no entanto, que a natureza sempre trabalha objetivando a razão do equilíbrio do ecossistema, que continuamente é alterado pelas intervenções humanas. Assim, os microrganismos, mediante suas multifunções necessitam atuar continuamente visando a garantia dos desígnios das espécies.

O conjunto dos organismos que vivem no solo é denominado de Microbioma e, dentre seus componentes, de forma geral, pode-se afirmar que pouco mais de 1% é considerado maléfico às plantas. Portanto, a manutenção desta proporção, reduziria drasticamente a probabilidade da ocorrência de distúrbios patogênicos.


Então, pode perguntar: qual é a razão dos inúmeros problemas que se evidenciam na agricultura em geral?


A resposta é simples e direta, ou seja, a essência de todos esses problemas é reflexo da baixa diversidade e das intervenções simplistas e equivocadas no sistema produtivo. Portanto, responsabilidade, respeito e conhecimento são ingredientes imprescindíveis para a receita de sucesso.

A maioria dos microrganismos no solo se proliferam e atuam muito próximos às raízes (zona meristemática e zona pilífera) em uma região denominada rizosfera, a qual se localiza em torno da raiz da planta, habitada por uma comunidade microbiana que é influenciada por compostos químicos liberados pela raiz e pelo próprio microbioma. A rizosfera é o palco das interações dinâmicas de natureza físicas, químicas e biológicas.

Figura 2. Efeito do uso de Trichoderma sp no sulco de semeadura de Aveia (Fancelli,2024)

As plantas, quando necessitam de ajuda, promovem a liberação de exudatos específicos (p. ex; estrigolactonas, flavonóides, trealoses e outros), visando a atração de microrganismos até a rizosfera, cuja comunicação pode ser atrapalhada por condições de ambiente desequilibrado e por resíduos de agroquímicos. Contudo, se os microrganismos cumprirem a função desejada, as plantas “remuneram” seus serviços prestados mediante farta liberação de carbonos, aminoácidos, poliaminas, vitaminas, proteínas e açúcares prontamente assimiláveis. Porém, para isso, as plantas necessitam se apresentar em estado orgânico favorável visando a produção e o compartilhamento dessas substâncias.

Dentre os principais microrganismos utilizados na agricultura, podem ser destacados aqueles pertencentes ao gênero Bradyrizobium e Rhizobium – fixadores simbióticos de N; Azospirillum – fixador livre de N e estimulador de enraizamento; Bacillus (B. subtillis, B. amylololiquefasciens, B. pumilus, B. lichiniformis, B. megaterium, B. velezensis e B. polimixia – controle de nematoides, fungos de solo, solubilização de P, Ca e K e síntese de hormônios), Bacillus ariabatthay – tolerância a seca; Trichoderma – defesa de plantas, controle de Fusarium, Rhizoctonia e Sclerotinia; Pseudomonas (principalmente P. fluorescens – solubilização de P ligado ao Fe e síntese de hormônios); Chromobacterium subtsugae – controle de pragas e fungos micorrízicos arbusculares (FMA) – disponibilização de P, Zn, N e estruturação do solo; além de outros.

Todavia, antes de se avaliar os benefícios da introdução de microrganismos ao sistema, recomenda-se o fomento e a manutenção dos microrganismos nativos, mediante o emprego de boas práticas agrícolas e do aporte ajustado de N, P, S e, principalmente Ca, além de matéria orgânica.

Considerações Finais

Finalmente, cumpre salientar que, nos dias de hoje, objetivando a obtenção de melhores resultados, um novo conceito na introdução de microrganismos no sistema produtivo está se destacando, ou seja, aquele representado pelo uso de produtos constituídos de comunidades ou de um conjunto de microrganismos cooperativos (microbioma sintético) e não mais mediante espécies isoladas. Algumas vezes, devido à ausência de critérios no uso (quantidade, concentração e momento), aliado à má qualidade do produto, incluindo a presença de contaminantes (produção “on farm”), já se observa indícios de problemas. Assim, deve-se dar preferência para empresas detentoras de tecnologia probiótica, que assegurem a produção de estruturas de resistência (ascósporos), que preservem metabólitos e enzimas e que dominem os diferentes métodos de convivência entre microrganismos.

Assim, além da escolha de empresas idôneas e responsáveis pela produção de produtos confiáveis e sem contaminação, o sucesso no uso de microrganismos na agricultura dependerá dos seguintes preceitos:

1) Os microrganismos não apresentam efeito imediato e espetacular e seus benefícios são manifestados ao longo dos anos de uso e de manejo.
2) A ação efetiva dos microrganismos associados às plantas (nativos ou introduzidos), depende das práticas agrícolas adotadas e do manejo racional dos insumos de produção.
3) Para que a ação dos bioinsumos seja efetiva sua utilização deverá ocorrer sempre de forma preventiva ou no início da detecção da anomalia.
4) O microbioma do solo precisa ser preservado e alimentado, além de ser frequentemente avaliado.
5) O uso de quantidades elevadas de bioinsumos pode provocar desequilíbrios significativos no sistema de produção e, portanto, todo o cuidado é pouco.
6) A introdução de microrganismos ao sistema de produção deve ser fundamentada em diagnósticos precisos e critérios rigorosos.

Diante de todos os benefícios e cuidados discutidos, conclui-se que o uso racional e criterioso de bioinsumos se constitui em mais uma eficiente estratégia objetivando a construção de sistemas agrícolas lucrativos e sustentáveis de produção.